sexta-feira, abril 24, 2009

de balões e girassóis

Quando resolvi criar girassóis em casa, ninguém contrariou a idéia. Ninguém riu, ninguém mandou que eu refletisse direito sobre o assunto, que eu pegasse antes uma flor vermelha menos importante pra testar com cuidado, analisar e ver se e realmente era capaz de agüentar o tranco, ninguém se manifestou por que não há mais ninguém aqui. Nenhuma voz há tempos que não tenho como calcular já que não vejo mais o sol se pondo; há tanta chuva nesse mês que se prolonga em anos, nesse abril que não desfaz as malas e fica - ou talvez já tenha vindo e ido embora sem fazer ruído, eu não teria percebido mesmo assim, que meus ouvidos já nem sentem mais qualquer presença, nem meus olhos, de tão áridos.

E se bem me lembro, costumava gostar de balões. Antes do nojo, quando meu corpo ainda não havia sido consumido por essa podridão de cheiros e texturas, quando eu ainda não podia entender a doença que eles continham em sua matéria e além dela, aqueles balões e todos os seus jogos, seus gritos, suas ameaças constantes. Eu os detestei. Hoje guardo apenas uma caixa com todos os textos que escrevi à lápis compulsivamente, as palavras cada vez mais solitárias, sem conexão, à deriva, como penso ter estado naquele tempo em que sentava pra escrever, o medo de perceber nas frestas das janelas algum movimento.

Quando as plantas no jardim estavam todas mortas, comidas pelas formigas, a salsa, os tomates-cereja, toda a horta e eu faminto, resolvi ter um balão em casa. Nada que a doença deles pudesse trazer seria pior do que essa fome. Demorei dias para enchê-lo e, quando cheio, dias para olhá-lo. Um balão vermelho, guardado no armário, junto aos vestidos de mesma cor, os sapatos, e eu deixava o rádio ligado tocando o mesmo disco, os olhos tristes da fita rodando no gravador, quando um dia não suportei mais a dor no estômago. Acordei tonto, o cheiro de vinho por todo o apartamento, a vontade que meu corpo doente tinha de dançar e resolvi procurá-lo. A música que tocava naquele momento gritava e a fome já era insuportável. Aquele cheiro que violou todo meu corpo, no instante em que abri as portas do armário depois de dias, o cheiro estava além da minha pele e foi por conta disso, e foi com violência que o segurei pra que ele nunca mais fosse embora. Prendi-o com uma corda em meus braços e quanto mais amarrava forte a corda mais eu a envolvia em minha cintura, em meu pescoço; que fosse maior a dor do que a possibilidade de um dia perdê-lo, para que o cheiro nunca mais se desprendesse de mim. São sons de sins são sons enquanto eu apertava forte contra meu rosto o balão inteiramente molhado pela minha saliva, pela lágrima, o cheiro do vinho, o salgado e todo o gozo que eu havia derramado em toda vida, tudo que ainda restava, e eu explodi.

Despertei não pela ausência de música, mas pela ausência de cheiros no apartamento. As lembrança da noite ou do dia anterior, nunca saberei dizer, o êxtase, o vômito que antecedera todo desejo ainda latente, começaram a materializar. A dor de cabeça constante veio acompanhada de uma sensação de vergonha que descobri, quando olhei pra mim, ser a de estar com as meias furadas, sem roupa. Uma vergonha que não se sente quando se está sozinho como eu estivera até então, e me veio um frio na barriga pela sensação dessa inesperada presença, os pêlos do braço em proteção. Proteção essa já não mais necessária diante da paz cada vez maior que aquela idéia me causava, de não estar mais sozinho.

Tomei banho com todos os sabonetes que encontrei no supermercado. A cada cheiro diferente, um novo banho, até que em minha pele em carne viva pudesse restar apenas o cheiro que as cinzas espalhadas por todo canto não me deixavam recordar. Parei de fumar. Ao invés disso, chocolates, frutas, todo dia despertava cedo para fazer o café e carregava comigo, pelas mãos, meu balão vermelho que deslizava suave, dançando, e nunca seus movimentos e suas danças foram tão graciosas como naqueles dias. As cores que antes me causavam enjôo, os tecidos cobertos de flores amarelas, azuis, “penso em renovar o mundo usando borboletas”, borboletas!, tudo que fosse clichê e tecnicolor: enchi o guarda roupa de vestidos novos, sapatos novos, as cortinas brancas para deixar que o sol preenchesse cada centímetro daquele edifício, dentro e fora, até que certo dia uma chuva amanheceu banhando a cidade.

Despertei com frio e o balão não estava no quarto. Meu corpo inteiro estremeceu sem saber se pelo frio ou pelo medo, mas ainda fiquei uns cinco minutos sem conseguir extrair de mim nenhuma reação. Até então, ainda não tinha parado para pensar sobre a possibilidade da morte, e essa idéia me pareceu tão possível agora, quase uma certeza, quando me arrastei até a varanda, de encontrar apenas o vazio e a neblina.

Hoje quando olho para o girassol no peitoril da janela, tento evitar os pensamentos que essas lembranças trazem à tona, tento esquecer do pavor, das mãos frias, não pensar nas possibilidades de que algo possa dar errado, calculista que sou, amedrontado com a falta da precisão cirúrgica da qual necessito para poder respirar em paz. Esse medo tento ridicularizar, transformar em qualquer outra espécie de sentimento para conseguir explicar no fim do dia, quando o girassol me olha pedindo que eu o ponha pra dentro, por que não posso envolvê-lo em meus lençóis quentes.

Aquele dia de chuva, no meio de sóis tão vivos, devia ser em maio. Quando notei que o balão ainda estava lá, não foi um alívio que se apossou de mim, mas uma pontada no peito que fez com que eu mantivesse, a partir daquele dia, todas as portas e janelas do apartamento fechadas. Expliquei que fazia isso por sua segurança e pedi que ele parasse de dançar. Segurança. Ato ou efeito de segurar. Amparo. Confiança, firmeza, certeza. Caução. Afoiteza. Garantia. Esteio. Evidência. Força. Convicção. Doze definições de dicionário e eu só penso o quanto era mesquinho o significado que escolhi para tentar explicar. Também sua dança já não me dava mais prazer. Eu sequer olhava pra ele, apenas para o fio que o segurava, que por mais forte que fosse, não afastava de mim as imagens que se formava em minha cabeça, como num filme de terror e em câmera lenta: dele se rompendo, deslizando para além das nuvens.

Não podia mais dormir em vigília. Descuidei das flores no apartamento, da cozinha, deixei de tomar banho. Ele não entendia o perigo, eu tentava explicar, mas a falta de sono, de alimentação, me deixavam fraco e doente, sem voz. Eu respondia à esse terror que me causava sua insustentável leveza com minhas ameaças, com meus espinhos, afiados todo dia pela manhã, até que ele entendeu. Ou pelo menos assim pensei, quando comecei a notá-lo quieto pelos cantos das paredes, em silêncio.

Esse silêncio, passado o êxtase de meu desespero, veio-me como uma pontada aguda. A falta de luz, o azedo que vinha de mim, da cozinha, o mofo.. Eu quis abracá-lo e quis pedir um pouco mais de paciência, que ele esperasse a chuva passar, que tudo ia voltar a ser como antes, mas quando cheguei perto vi que ele havia mudado de cor. Estava pálido, havia diminuído consideravelmente de tamanho e não conseguia mais levantar.

Todas as lágrimas que eu pensei estar poupando todo esse tempo romperam de mim e levaram embora com elas toda minha doença, toda minha cegueira. Eu pedi que ele me perdoasse pela minha estupidez, pelo meu egoísmo, gritei; abri todas as portas, as janelas, até mandei que ele fosse embora, se isso fizesse com que ele se curasse. Mas não obtive nenhuma reação. Nenhuma palavra. Não sabia o que fazer e resolvi ir embora, deixá-lo em paz. Lembrei dos livros que via na estante de auto-ajuda, repúdio, repúdio, eu queria de novo a dança, a leveza, a música. Deixei o rádio ligado com a música que ele mais gostava quando parti.

Passei dois meses viajando, sem rumo, sem dormir e enquanto pulava de motel em motel, na beira das estradas, pensava que esse tempo afastado pudesse curar todos os meus erros e que ,quando eu voltasse, meu balão teria me perdoado e seríamos felizes juntos. Felizes para sempre, nada de Gabriel Garcia! Apenas dança, cores, iríamos viajar, uma casinha num campo pra que ele pudesse voar livre, passarinhos.. Eu abriria mão de minhas manias, de minhas obsessões, deixaria que ele lesse pra mim qualquer nuvem, que dessa vez eu prestaria atenção.

Cheguei em casa numa manhã de quarta-feira. O apartamento estava coberto de sapos. Deixei minhas malas e desci, depois de procurar por todo canto.

- É, andou chovendo por aqui - O porteiro apontou para a janela como se respondesse minha pergunta. Mas não deu a resposta que mais eu queria saber, embora eu já soubesse desde o dia em que eu parti.

- Tenha um bom dia.
- Ah! Quase me esquecia.. tem correspondência pro senhor.
- Conta?
- De um tal de Caio Fernando..
Um conhecido seu?- Ele falava umas coisas esquisitas
- ..embora eu lembre vagamente do nome..
- Abreu?
- Acho que era isso mesmo.

Rasguei o envelope. Caiu uma pétala amarela de dentro, e tinha um papel pequeno. O porteiro deu as costas ainda falando.

- Desculpe, não ouvi direito.
Ele se virou em minha direção e viu quando eu pegava a pétala e colocava de volta no envelope.
- Eu disse que gostei do sujeito, embora a conversa de dragões.. eu não entendi muito bem, não.
- Dragões?
- Acho que ele tinha bebido um pouco. - E ia se virando novamente, mas parou.
- Engraçado, agora que eu parei pra pensar, não tinha cheiro de bebida, não. E olha que eu conheço muito bem um cheiro de cachaça de longe. Ele tinha um cheiro bom e lembrou um pouco a minha infância, quando a vó levava a gente pro mercado..
- De peixe?
- De ervas. Hortelã. Ou alecrim, se não me engano.

Fiquei um tempo tentando recordar do cheiro que podiam ter o hortelã e o alecrim, mas sem sucesso. Abri o envelope e puxei a única folha que tinha dentro, pequena e com uma letra datilografada contendo apenas três palavras, que eu não entendi o que significavam, mas o dia estava tão bonito e eu não conseguia chorar.

que seja doce.

Estavam assim mesmo, com letra minúscula e um ponto final.

Uma leve pontada de esperança apertou meu peito e eu sorri como não sorria há dias, como nem lembrava de ser capaz: de dentro pra fora e sinceramente. Lembrei da música que deixei tocando quando parti, Look at him working, darning his socks in the night, when there´s nobody there.. Ela nunca deixou de ser minha, e eu fiquei tanto tempo tentando lembrar de quem havia feito a pergunta, ela ou ele, ora, de que isso importa? O importante realmente sempre foi a resposta..

- Deixo.

Virei o papel já tendo a certeza de cumprida uma promessa feita numa primavera há tantas vidas atrás. Virei o papel sabendo que as palavras ganhariam um sentido profundo, quase religioso, e que era a partir daquelas palavras que minha vida começava.. a partir de agora, desde sempre, que seja doce que seja doce que seja doce, mil vezes que seja..

mel e girassóis

assim, sem ponto final.

2 Outras distorções:

Blogger Raisa sentiu...

orgulhosa, vou mostrar pro charlie, que foi quem me iniciou nos dragões. amei

8:40 AM  
Blogger Buuna sentiu...

;__;

li até o final, mas sem saber se é o final mas no final tinha o tal do ponto final. enfim... adorei, li duma vez. e olhe que morro de preguiça. inspiração foi essa ein? me da um pedacinho. enfim, ja te gabei demais. um beijo grande.

9:57 PM  

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